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Dependendo do caso, a definição de limite pode ser bem pouco
manejável, entretanto nem sempre é necessário recorrer-se a ela
para se investigar o limite de uma função.
Veremos agora algumas propriedades que tornarão mais simples o estudo
dos limites e suas aplicações.
Na seguinte proposição está subentendido que f e g
têm o mesmo domínio e que a variável independente x
sempre pertence a esse domínio. Adotamos essa prática sempre que
necessário para não carregar os enunciados com
condições obvias.
Prova A primeira afirmação não é difícil de
se demonstrar. É deixada ao leitor, sendo demonstradas aqui apenas
a segunda e a terceira que são um pouco mais elaboradas.
Definamos inicialmente
e suponhamos
k>0. Usaremos a identidade
Seja
dado e tomemos
de modo que
Assim, tomando o módulo em ambos os membros da equaçaõ
(2.9), a condição
implica:
Portanto, o segundo item da proposição fica demonstrado para o caso
em que
ou
.
O caso em que ambos os limites são nulos
deixamos ao leitor como exercício.
Provemos o item 3. É suficiente mostrar que
e depois aplicar essa propriedade combinada com o item 2 ao
produto
.
Tomando
,
vem da definição de
limite que existe
tal que
implica
|g(x)-m|<|m|/2. Assim,
,
o que implica
|g(x)|>|m|/2.
Assim, dado
,
existe
,
que pode
ser tomado menor do que
,
tal que
implica
Portanto,
implica
Observação 2.2.1
1) A primeira e a segunda afirmações da Proposição 2.1 se
estendem para um número qualquer de parcelas, ou de fatores,
respectivamente. Assim, se

,
segue-se
que
![$\lim_{x\to a}\bigl[f(x)\bigr]^n=\ell^n$](img329.gif)
.
2) Portanto, se P(x) é um
polinômio, segue-se que
.
De fato, basta
notar que a forma geral do polinômio P(x) é dada por
e que
.
3) Se P(x) é um polinômio, uma combinação das
propriedades acima com os itens (5) e (6) do Exemplo 2.1.1 nos
dá:
,
e
,
se
.
O item (3) do Exemplo 2.1.1 segue da observação
acima, não sendo necessário, conforme já tinhamos adiantado
na ocasião, o uso direto da definição de limite. O mesmo
vale para o item (4) do Exemplo 2.1.1.
A proposição seguinte é muito útil. Traduz um fato
inteiramente previsível: se o limite de f
em a é um número
, então f(x) tem o mesmo sinal
de
para x próximo, mas distinto, de a. Por essa
razão tem o nome que tem.
Teorema 2.2.1 (
Teorema da conservação do sinal)
Seja

uma função tal que

.
Então, existe uma vizinhança
V de
a tal que,
se

,
f(
x) tem o sinal de

.
Prova Tomemos
e
consideremos
de modo que:
ou, equivalentemente,
Logo, se
,
para
temos
e, para
,
.
Exemplo 2.2.1 (1)
O polinômio
P(
x)=2
x3-
x5+1 é positivo numa vizinhança
de
x=3/2, pois, de acordo com a Observação
2.2.1,
O Teorema da Conservação do Sinal garante que
P(
x)
tem o sinal de 5/32 numa vizinhança de
a=3/2.
(2) O tamanho da vizinhança V, no Teorema da
Conservação do Sinal, varia de acordo com cada caso.
Assim, se considerarmos as funções
fn(x):=1-n2x2,
,
temos
,
para todo
,
portanto, existe uma vizinhança
de x=0 onde
fn(x) é positiva.
Fazendo o gráfico de fn, que é uma parábola pelos pontos
e vértice (0,1), vê-se claramente que
a maior vizinhança
possível, com centro em 0,
onde fn(x)>0 é
.
Ou seja, quando
n cresce, a vizinhança diminui. Veja a Figura 2.4.
(3) Analise o exemplo das funções
gn(x):=1-nx,
,
em torno do ponto x=0, para reforçar a observação
do item (2) acima.
Proposição 2.2.2
Dada uma função

,
suponhamos que exista

.
Então existe
uma vizinhança
V(
a) de
a tal que a restrição de
f a

é limitada.
Prova Suponhamos primeiramente
.
Sendo
,
tomemos
.
De acordo com a
Definição 2.1.1, existe
de modo que
ou seja, tomando
,
donde,
,
para todo
.
Caso
,
a mesma argumentação implica
,
para todo
.
Portanto, f
é limitada em
em qualquer dos casos considerados
Uma função f que satisfaz as conclusões da Proposição
2.2.2
se diz localmente limitada em a. Uma função que é
localmente limitada em cada ponto de um conjunto B se diz localmente
limitada em B.
Observação 2.2.2
Obviamente, qualquer função limitada

é localmente limitada em
B. Entretanto,
não vale a recíproca desta afirmação pois, pelo que
já sabemos, todo polinômio é localmente limitado em

(porque?),
embora, como ficará claro na Seção 2.3, apenas os
polinômios constantes sejam limitados.
A Proposição 2.2.2 pode ser vista como um critério de não
existência do limite: se uma função não é
localmente limitada num ponto a, então não existe
. Por outro lado, sendo f localmente
limitada em a, não se pode dizer que o limite em a existe.
Exemplo 2.2.2 (1)
Não existem os limites

e

,
pois as funções 1/
x e
1/
x2 não são localmente limitadas em 0. Veja as
Figuras 2.5.
Figure 2.5:
y=1/x e y=1/x2
|
|
(2) Com o mesmo tipo de argumento conclui-se que as funções
e
não têm limite nos pontos
,
.
(3) A função
é localmente
limitada em 0 mas, como já vimos anteriormente,
não existe
.
Quando uma função f satisfaz
,
usa-se
dizer que f é um infinitésimo em a. A
proposição abaixo é enunciada informalmente do seguinte modo:
O produto de uma função limitada por um infinitésimo
é um infinitésimo.
Proposição 2.2.3
Se
f e
h são funções
definidas em um mesmo domínio,
h(
x)
é limitada (ou apenas localmente limitada em
a) e

,
então

.
Prova Não há perda de generalidade em assumir que h
é limitada pois, caso contrário, podemos provar a
proposição tomando as restições das funções
f e h à interseção do domínio de f e h com uma
conveniente vizinhança do ponto a.
Sejam
,
com
,
e
K>0 um número tal que
,
para todo
.
Seja
qualquer.
Tendo em conta que
,
escolhamos
tal que
Assim,
ou seja,
.
O seguinte exemplo mostra que o cálculo de um limite, aparentemente
complicado, pode seguir diretamente da Proposição 2.2.3
Exemplo 2.2.3 (1)

,
pois este é o limite do
produto de uma função limitada,

,
por um
infinitésimo em 0,
f(
x)=
x. Faça um esboço do
gráfico da função

inspirando-se na Figura 2.3.
(2)
,
pois a função
considerada é o produto de uma função localmente limitada
em x=0,
,
por um infinitésimo em 0,
f(x)=x2.
É natural esperar-se que valha uma proposição como a seguinte:
Teorema 2.2.2 (
Teorema da comparação)
Sejam

funções tais que

,

.
Se existirem os limites

e

,
então
 |
(2.3) |
Prova Suponhamos temporariamente que
.
Então, de acordo com a
Proposição 2.1, temos
Do Teorema da Conservação do Sinal segue que existe uma
vizinhança V(a) de a tal que
f(x)-g(x)>0, ou seja,
f(x)>g(x) em
,
contrariando nossas
hipóteses.
Exemplo 2.2.4 (1)

De fato, como

,
podemos nos restringir ao caso
x>0,
portanto,
e, como

,
nossa
afirmação segue do Teorema da Comparação.
(2) Mesmo que se tenha f(x)<g(x),
,
no Teorema da
Comparação, não se pode trocar "
'' por "<'' em (2.4).
De fato, se g(x)=x e f(x)=-x, para
,
temos
f(x)<g(x) e, apesar disso,
.
(3) Suponhamos que, para uma certa função f, exista
então,

.
De fato, como

,
segue do Teorema da Comparação que
![$\lim_{x\to a}\bigl[f(x)/\bigl(1+\vert f(x)\vert\bigr)\bigr]\le1$](img398.gif)
.
O teorema abaixo, que também é chamado vulgarmente de
Teorema do Sanduíche, é uma consequência do
Teorema da Comparação.
Teorema 2.2.3 (
Teorema do confronto)
Sejam

tais que

,

,
e

.
Então
O gráfico de g fica "preso'' entre os de f e h, como
mostra a Figura 2.6. Uma observação cuidadosa dessa figura
indica que Teorema do Confronto não poderia
deixar de valer.
Figure 2.6:
Teorema do Confronto
|
|
Prova Seja
um número qualquer.
Como
,
existem
de modo que
Logo, se
e se
,
a condição
implica
donde
,
ou seja,
.
Observação 2.2.3
O item (1) do Exemplo
2.2.3 segue também do
Teorema do Confronto. De fato, como

e

,
o Teorema do Confronto implica

.
O Teorema do Confronto tem ainda como consequência
o chamado
Primeiro limite fundamental.
Prova Vamos considerar sabido que a área de um
setor circular de raio r, determinado por um arco de comprimento
s, é sr2/2.
A idéia é mostrar que os dois limites laterais em x=0
existem e são ambos iguais a 1. Como a função
é par, basta fazer o caso x>0 (veja o exercício 8).
De acordo com a Figura 2.7 (onde OA é suposto um segmento de comprimento
unitário), para
,
podemos escrever
S1<S2<S3, onde S1 é a área do triângulo OAB, S2
a área do setor circular OAB e S3 a área do triângulo OAC.
Figure:
|
|
Notando que as alturas dos triângulos OAB e OAC, relativas
à base OA, são
e
,
respectivamente, temos:
e, como
S1<S2<S3, vem
Donde, dividindo por
,
e, tomando os inversos de cada membro,
Como
,
a conclusão
é agora consequência imediata do Teorema do Confronto.
Exemplo 2.2.5 (1)
De fato,
(2)
De fato,

Finalizamos esta Seção apresentando duas proposições
relacionadas com raízes n-ésimas e expoentes fracionários que
somente serão provadas mais tarde.
A prova é uma consequência
imediata da Proposição 2.4.4, da Seção 2.4. Na mesma Seção,
veja o Exemplo 2.4.3.
Na verdade, vale um fato mais geral do que a Proposição 2.2.4:
A Proposição 2.2.5 é um caso particular da
Proposição 2.4.5.
Em outras palavras ela diz que os sinais de
limite e de radiciação, em geral, podem ser trocados:
Exemplo 2.2.6 (1)
Se
a>0;

,
temos
ou, em termos de expoentes fracionários
A verificação deste fato pode ser feita por uma combinação
da Proposição
2.2.5 com as propriedades dos limites.
(2)
De fato,

.
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Placido Zoega Taboas
2000-04-02