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Nesta seção vamos considerar o problema de fazer
estimativas, isto é, aproximações. O conceito de
diferencial tem aqui um papel muito importante.
Em nossas considerações sobre a velocidade em um
movimento retilíneo de um ponto dado por x=s(t), no início do capítulo,
observavamos que, ao se mover da
posição s(t1) para s(t2), a velocidade
média v é definida por
A velocidade média é a taxa (razão) de variação da
posição s(t) em relação à variação do tempo t no
intervalo [t1,t2]. A velocidade
v0 em um instnte t0 (isto é, a derivada de s(t) em t=t0)
é essa taxa no instante t0.
A derivada tem o mesmo papel no estudo de processos em que
uma grandeza qualquer evolui com o tempo, ou com alguma
outra variável não temporal. Esses processos trazem em si
o natural interesse pela taxa de variação da dita grandeza
(variável dependente) com relação ao tempo, ou à outra
variável (independente) em questão. Assim, em ecologia, a taxa de
crescimento ou declínio de uma espécie; em economia, o custo
marginal de produção de alguma mercadoria (isto é, a taxa de
variação do custo com respeito à quantidade produzida)
são alguns exemplos onde a derivada está presente.
Fixemo-nos no exemplo da velocidade. Se conhecermos a velocidade
v0, num instante t0 e quizermos determinar aproximadamente a posição
s(t), para t ``muito próximo'' de t0, é natural assumirmos v(t)=v0
constante e estimarmos
. Ao fazer isso estamos
assumindo que se s(t) variasse linearmente com t numa vizinhança de t0
desvreveria um movimento próximo do movimento real.
Como as funções lineares têm boas propriedades e, portanto, são
em geral mais fáceis de estudar, em muitos casos convém aproximar uma
função qualquer, y=f(x), por uma função linear,
mesmo que essa aproximação seja acurada somente numa
vizinhança de um ponto x=a.
Sejamos mais precisos. Uma função linear é
uma função
da forma
,
para todo
,
onde
é uma
constante. Portanto, o gráfico da função linear
é uma reta passando pela origem, dada pela equção y=kx. Seja
uma função qualquer. Se
é fixado,
queremos esclarecer o que entendemos por aproximar f por uma função
linear
numa vizinhança de a. Isto significa adotar o seguinte
procedimento (veja a Figura 3.18):
- 1.
- Introduzimos novas coordenadas
no plano, definidas
pelas relações
,
(a origem
do novo sistema de coordenadas corresponde ao ponto
(a,f(a)) do gráfico da função f)
- 2.
- Numa vizinhança da origem do plano
,
substituímos o gráfico de f pelo gráfico de uma
função linear
.
Isto é, denotando
,
substituímos
por
(vale dizer,
aproximamos por
o valor
).
Como se trata de aproximar a função f, é
óbvio que em geral estamos cometendo um erro (erro absoluto:
). Essa aproximação
só é conveniente quando o erro relativo,
tende a zero, com
.
Isto é, quando existe
tal que
ou seja,
mas isto equivale a dizer que k=f'(a). Assim, podemos concluir
que o processo de aproximação descrito aqui
(comumente referido como um processo de linearização) só é
executável quando f é diferenciável em a.
Neste caso colocamos a seguinte definição:
Definição 3.4.1
A função linear
 |
(3.14) |
é chamada a
diferencial de f no
ponto a e denotada por
df(
a) ou, simplesmente,
dy.
Temos então a estimativa
Como se vê na Figura 3.18, aproximamos o acréscimo real
pelo
acréscimo linear
.
Exemplo 3.4.1 (1)
Uma caixa cúbica tem a aresta medindo
x=4
cm, com um
erro máximo de 0,05
cm. Qual o erro máximo no volume
V da caixa?
Essa estimativa pode ser feita da seguinte forma: Se a aresta varia de
x para x+dx, a variação
do volume é
.
Como
,
lembrando que V'=3x2, obtemos:
dV = 3x2dx
e, para
x=4 e

,
obtemos finalmente:
que é, em
cm3, o maior erro possível no volume.
(2) Estime de quanto variou o lado de um quadrado, se sua área variou
de
para
.
Exprimindo o lado y do quadrado em termos de sua área x,
Considerando
x = 16 e um incremento
dx = 0,1, o incremento
dy no
lado do quadrado pode ser estimado como segue:
Ou seja, o lado do quadrado variou de

.
Se quizermos aproximações mais acuradas,
teremos de abrir mão de que elas sejam lineares. Antes de
prosseguirmos, notemos que se f for diferenciável em a denotarmos
dx=x-a e
,
a Definição implica
 |
(3.15) |
Note que o segundo membro de (3.17) é um polinônio
em x-a de grau 1, P1(x), que coincide com f no ponto a e cuja
derivada coincide com a derivada de f no ponto a.
Se f for diferenciável até ordem 2 em a, podemos
aproximar f, por um polinômio em x-a de grau
2, P2(x), de modo que
P2(a)=f(a),
P'2(a)=f'(a) e
P''2(a)=f''(a).
Este polinômio só pode ser
|
P2(x):=f(a)+f'(a)(x-a)+(1/2)f''(a)(x-a)2.
|
(3.16) |
De fato, a expressão geral de um polinômio em x-a de
grau 2 é
P2(x)=a1+a2(x-a)+a3(x-a)2, logo
P2(a)=a1 e suas derivadas
até ordem 2 em a são:
P'2(a)=a2 e
P''2(a)=2a3.
Impondo as condições requeridas sobre P2(x), obtemos a1=f(a),
a2=f'(a) e
2a3=f''(a), portanto, P2(x) tem a
expressão dada em (3.18).
É intuitivo que P2(x) seja uma melhor aproximação
de f(x), pois além de coincidir com f em a,
juntamente com sua derivada, as derivadas de ordem 2 em a também cincidem,
portanto, f e P2 têm o mesmo
caráter de convexidade em a.
Mais geralmente, para qualquer
,
se
tiver todas as
derivadas até ordem n em um ponto a de um intervalo
aberto I, o único polinômio em x-a de grau n que coincide com f em a,
juntamente com todas as suas derivadas
até ordem n, é
como pode ser verificado pelo leitor por aplicações sucessivas dos
argumentos acima ou, melhor, por uma aplicação do princípio de
indução finita.
Definição 3.4.2
O polinômio
Pn dado em (
3.19) é chamado
Polinômio de Taylor de ordem n de f, em torno de a.
A discussão que se segue mostrará que a aproximação de
uma função
é tão mais acurada quanto maior
for n.
Suponhamos
num intervalo aberto I,
.
Ao se aproximar f pelo seu polinômio de Taylor de ordem n, em
torno de a, comete-se um erro En(x) definido por
En(x):=f(x)-Pn(x),
para x numa vizinhança de a, ou seja:
 |
(3.17) |
Nosso objetivo agora é obter uma estimativa para En(x). Para chegarmos
a ela precisamos do seguinte resultado, que será útil
também na seção seguinte.
Teorema 3.4.1 (
Teorema de Cauchy)
Sejam
f e
g funções
contínuas em [
a,
b] e diferenciáveis em (
a,
b), então
existe
c em (
a,
b) tal que
![\begin{displaymath}
\left[f(b)-f(a)\right]g'(c)=\left[g(b)-g(a)\right]f'(c).
\end{displaymath}](img939.gif) |
(3.18) |
Prova. Definindo
verificamos que r é uma função contínua em
[a,b] e diferenciável em (a,b). Ainda mais,
r(a)=f(b)g(a)-g(b)f(a)=r(b),
logo, pelo Teorema de Rolle, existe
tal que r'(c)=0, ou seja,
Observação 3.4.1
O Teorema de Cauchy é uma extensão do Teorema do Valor
Médio, pois este corresponde a considerar o caso particular
g(
x)=
x no
Teorema de Cauchy.
Voltemos agora à questão de estimar o erro En(x).
De acordo com a relação (3.21), En(x) é uma função de
classe Cn+1 numa vizinhança de a. Mais ainda,
 |
(3.19) |
nessa vizinhança.
Vamos precisar do seguinte fato: se
h(x):=(x-a)n+1,
 |
(3.20) |
Como (3.23) e (3.24) implicam
En(a)=h(a)=0, podemos escrever,
para
:
De acordo com o Teorema de Cauchy, existe
,
entre x e a
de modo que
logo,
 |
(3.21) |
e, observando que (3.23) e (3.24) implicam
E'n(a)=h'(a), a Equação (3.25) pode ser
re-escrita:
Assim, decorre novamente do Teorema de Cauchy de maneira inteiramente análoga a
existência de um número
,
entre
e a, tal que
 |
(3.22) |
Pelas igualdades (3.23), (3.24), obtemos,
Aplicando sucessivamente esses argumentos, chegamos por fim, à
existência de um número
,
entre x e a, de modo que
 |
(3.23) |
Como, de acordo com (3.23) e (3.24),
temos, substituindo h(x) e esses valores em (3.27):
 |
(3.24) |
e, conhecendo-se uma cota superior para
|f(n+1)|, a relação
(3.28) fornece uma estimativa para o erro En(x). Na
verdade, como estamos assumindo
no intervalo aberto
I, podemos nos restingir a uma vizinhança
tal que o intervalo fechado
esteja contido
em I. Como f(n+1) é uma função contínua no
intervalo fechado J, sabemos que ela é limitada em J.
Assim, existe uma constante positiva L tal que
,
para todo
entre x e a. A
Equação (3.28) implica
isto é, En(x) tende a zero mais rapidamente do que
(x-a)n, quando
.
Esta propriedade é expressa pela
notação
A discussão precedente nada mais é do que uma prova do
seguinte importante Teorema de Taylor:
Teorema 3.4.2 (
Fórmula de Taylor)
Sejam
f uma
função de classe
Cn+1 num intervalo aberto
I e

.
Então, para cada
x numa vizinhança de
a, existe

,
de modo que
A expressão do erro, ou resto, En(x), dada em (3.28) é atribuida
a Lagrange, por isso a expressão (3.29) é comumente referida como
Fórmula de Taylor, com resto de Lagrange, em torno de a.
Quando a=0, a fórmula (3.29) recebe o nome de
Fórmula de Maclaurin.
Exemplo 3.4.2 (1)
Dado o polinômio
P(
x)=
x4-3
x3+5
x2-1, sua expressão em termos
de potências de (
x-2) coincide com o polinômio de Taylor de grau 4
em torno de
x=2, que pode ser obtido da seguinte forma (Veja o exercício 14):
Como
,
temos,
x4-3x3+5x2-1 = 11+6(x-2)+6(x-2)2+5(x-2)3+(x-2)4.
Neste caso, o resto de Lagrange é, obviamente, nulo e a
aproximação vale em toda a reta.
(2) Vamos obter uma estimativa para
a partir do valor
conhecido de
e do polinômio de Taylor de grau dois de
,
em torno de
.
Sendo
,
,
e
,
o polinômio (3.19) com n=2, em torno de
é
Desta forma, fazendo

que, em graus, corresponde a
61
0, obtemos a estimativa
Além disso, o resto de Lagrange pode ser estimado da seguinte forma:
e, como

,

,
obtemos, finalmente:
Conluimos que

,
com uma precisão de cinco
casas decimais.
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Placido Zoega Taboas
2000-04-02